DEPOIMENTOS DE PACIENTES

Eu ouvi: "Troca de namorado" e "Toma um vinho"

Tenho 25 anos e há quase 1 ano fui diagnosticada com dispareunia. Assim parede tudo muito simples e fácil, mas para chegar até aqui e poder falar com conhecimento de causa deste problema foram anos de frustações, dúvidas e dores, tanto físicas quanto psicológicas...


Comecei a namorar aos 18 anos e, só então, tive minha primeira relação sexual. A tão 'esperada' ou 'temida' primeira vez foi muito dolorida, mas ok, porque a primeira vez é sempre dolorida, não? Não. Ou pelo menos não daquela maneira. Na minha primeira vez, além de não sentir prazer, não consegui finalizar o ato. Nem na segunda, nem na terceira, nem na quarta. Sim, eu contei. A minha quinta tentativa de relação, foi quando, de fato, a relação aconteceu.


Durante o primeiro ano de namoro foi assim, sentia dores no início mas com insistência conseguia sentir prazer. Isso acabava compensando a parte dolorosa. Aos poucos a recompensa deixou de ser o suficiente e fui tendo uma diminuição na libido.


Então começaram os problemas no relacionamento e a busca pelas soluções... Eram inúmeras conversas tentando encontrar um porquê e discussões de quem era a culpa. O que não sabíamos é que, na verdade, não existe um culpado neste caso.


Hoje eu consigo ordenar os fatos, mas no calor dos problemas, no desespero por soluções, eu achava que era apenas o fato de não 'sentir vontade'...


Primeiro foram diversos ginecologistas e exames de taxas hormonais. Tudo ok, estava clinicamente saudável. Então era óbvio, o problema era EU! Psicológico! 


Dra, o que pode estar acontecendo? 

-Troca de namorado, você não o ama.

-O pênis dele é muito grande?

-Normal! Em tora relação tem dor.

-Toma um vinhozinho pra relaxar!!


Essas foram as grandes soluções que recebi de algum profissionais. Ok, vamos para psicólogos, sexólogos, livros, artigos... Mesma coisa, mesmas respostas, mesmas falsas soluções. 


Mais dúvida e menos vontade.


Foi aí que acreditei ter descoberto meu problema.. Eu não gostava e pronto. Chocolate é bom, mas nem todo mundo gosta.. Então, sexo é bom, mas nem todo mundo gosta.


Nisso eu já estava namorando há 6 anos e tínhamos relação a cada 3 meses, em média. Sim, 3 meses! E quando eu sedia era apenas pra cumprir o papel. Há um ano reencontrei uma conhecida da adolescência e, numa conversa informal com um grupo de mulheres, comentei o fato de "não gostar de sexo". Claro que todas ficaram chocadas, principalmente essa antiga conhecida.


Logo depois ela me chamou e se reapresentou como Dra. Joana, fisioterapeuta pélvica, e fui me convidou a ir até o consultório e fazer uma avaliação. Na hora fiquei super animada, naquela mesma semana fiz a avaliação e foi diagnosticado: Dispareunia. Ah, mas a dispareunia também podia esperar, até porque estava com outros problemas e nada me garantia que o tratamento surtiria efeitos. Após 4 meses da avaliação tive uma crise bem feia no relacionamento e, só neste momento, aceitei fazer o tratamento. Levei meu namorado até o consultório pra ele também ouvir de uma profissional que este problema realmente existia e que sim, tinha solução! Iniciei o tratamento. Foram 10 sessões. E enfim, o feedback positivo: Sem dores!! Sim, depois de 7 anos, tive minha primeira relação sem dor alguma. E inclusive consegui sentir prazer!!


Tenho consciência que é necessário uma continuidade no tratamento e que ainda pode melhorar muito, mas o fato de não sentir dor já considero 99% do problema solucionado. Durante todo o tratamento a intimidade e confiança no trabalho da fisioterapeuta foi imprescindível. Além da minha disposição e comprometimento em melhorar. Agradeço todos os dias por estar lá, naquele dia, naquela roda de mulheres e por ter falado do meu problema sem tabus.


Você, que tenha algum problema semelhante ao que eu tinha, não imagina quantas mulheres também sofrem disso. Infelizmente é muito mais comum do que imaginamos. Em busca de soluções sempre falei do meu problema sem constrangimentos e foi assim que encontrei a solução. Não tenha vergonha do seu problema, tenha vergonha em se acomodar e viver na frustração. Dor na relação nunca é normal. Ame-se, cuide-se e encare seus problemas de frente para poder superá-los.

H. B.